Desafio #10: Isto é um aviso

O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.
Vozes anoitecidas, Mia Couto

Na obra “Isto não é um diário” Zygmunt apresenta algumas daquelas que são chamadas como verdades inconvenientes. O escritor aborda questões incomodativas, mas que têm de ser pensadas e procura, através dos seus textos, demonstrar algumas das suas preocupações e que façam os outros pensarem sobre elas.

Trata-se de um desabafo através da escrita daquilo que são questões preocupantes e que afetam a sociedade de hoje, mas que trarão consequências graves às gerações do futuro, talvez seja essa a maior preocupação. Zygmunt Bauman retrata no seu livro questões que não passam pela cabeça de muitos, mas, pior do que isso, escreve sobre aquilo que muitos pensam, mas não têm coragem de dizer.

Tenho referido, ao longo de todos os textos que tenho escrito, a importância de algumas ferramentas da nossa época nomeadamente da influência que a tecnologia tem no mundo em que vivemos, como é um fator determinante na nossa era, que afeta e estimula a ideia do do it yourself, assim como a capacidade fascinante de nos ligar ao mundo ao mesmo tempo que traz a desvantagem de levar ao comodismo.

Bauman faz um alerta à sociedade e é importante que se comece a dar atenção às críticas do autor que, mais do que meras críticas, são situações pelas quais os cidadãos estão a passar e que devem ser analisadas e reparadas. Vive-se uma época de grandes mudanças sociais onde o Estado se desagrada enquanto instituição, onde se sente cada vez mais a sensação de impotência através da colisão de ideais e onde se instala cada vez mais a sensação de medo e desconfiança porque os valores onde nos apoiamos ou as instituições que deveriam auxiliar-nos são as primeiras a desmoronar.

O autor sensibiliza para a questão crucial de se pensar sobre o mundo em que vivemos. As mudanças de que o mundo tem sido alvo e aquilo que é possivelmente o nosso futuro.

Bauman fala sobre a tendência humana de se abominar aquilo que é estranho porque causa medo e ansiedade, porque representa o perigo. Esses receios dificultam a convivência com outras culturas que, aos nossos olhos, são vistas como estranhos por causa do desconhecido. Vive-se numa época onde a falta de tolerância que é cada vez maior.

Um dos fatores de maior preocupação e que é merecedor de grande atenção por parte do escritor é a perda da confiança. A perda da confiança num prisma geral, mas com a noção de que é nesta confiança que se sustenta a ordem económica, política e social, pilares fundamentais e que sem os quais a confiança se desmorona. Ainda associada à questão da confiança, Bauman acredita que a própria perceção sobre o que é certo e o que é errado começa a ficar mais distorcida.

O autor lança um apelo sobre a importância de se tentar, a ideia de tentar e mudar para que se torne possível criar laços de confiança novamente. Recuperar nossa confiança na possibilidade da verdade.

Vivemos numa época onde a frustração dos cidadãos é cada vez mais visível. Uma frustração devido às desigualdades sociais, nomeadamente a nível económico. A impossibilidade de se atingir os objetivos que são comumente delineados pelos indivíduos e que são sinónimo de concretização a nível pessoal.

Todas estas questões são preocupantes, mas tornam-se ainda mais perigosas e preocupantes quando se lembra que as novas gerações irão ser as maiores vítimas e que já começam a sofrer as consequências de todas as ações passadas e que não foram medidas.

Habitamos agora num mundo cada vez mais desenvolvido e globalizado, onde questões como a tecnologia, a comunicação são fatores que destacam a era em que vivemos e que são – ou deviam ser – uma mais-valia. Contudo, ainda se verifica desigualdades entre indivíduos bastante acentuadas. Desigualdades a nível social e económico que confirma que apesar de toda a evolução o acesso a questões essenciais e básicas ainda não acedidas a todos com a mesma facilidade. 

Um dos alertas mais importantes que faz é sobre a internet, uma ferramenta tão usual nos dias que correm e mais do que isso, faz parte do quotidiano da maior parte dos indivíduos, nomeadamente da camada mais jovem que usa a internet como uma extensão da sua vida, o uso das redes sociais, o recorrer à internet para se informar. A utilização da internet para funções básicas da nossa vida faz-nos esquecer dos perigos que ela carrega, daí o autor intitular a internet como uma arma isenta de regras para a sua utilização. A falta de equilíbrio no uso da internet, utilizá-la de forma errada e não saber aproveitar todo o seu potencial para se fazer o melhor.

Outro dos exemplos referidos pelo escritor na matéria de não se saber aproveitar o seu potencial é, provavelmente, o conceito de cultura. A cultura é um fator crucial no ser humano, é o que os define. Contudo tem também sido o motivo pelo qual os cidadãos têm destinos diferentes, justifica-se a falta de condições para se viver dignamente por causa da cultura. Culpa-se a cultura pelos problemas sociais e a falta de condições em que muitos cidadãos vivem. A cultura é a essência dos indivíduos e é algo que lhes é intrínseco, não pode ser vista como a razão que leva um cidadão a não ter acesso a condições de vida dignas, tal como é exemplificado na obra a questão sobre pessoas de etnia cigana. O “multiculturismo” visto como algo mau quando podia ser uma mais-valia para a formação dos cidadãos e o desenvolvimento das sociedades. Vivemos em pleno século XXI e ainda não se conseguiram acabar com questões como a do racismo.

O ódio começa a ser cada vez maior devido à frustração que os cidadãos, nomeadamente os jovens, sentem. As consequências são sofridas sobretudo pelos jovens pela hipótese de se viver num futuro incógnito. A falta de emprego traz consequências a nível económico e social, aumentam as desigualdades e isso é ainda mais notável nos países desenvolvidos.

Entre nós existem jovens, que como o próprio autor os define, cheios de talento, perspicácia, inventividade e ousadia, rochas duras à espera de serem polidas e transformadas em diamantes. Jovens cheios de potencialidade, mas que precisam de uma oportunidade para serem uma mais-valia na sociedade.

O autor faz uma constatação de factos assustadores que descrevem plenamente o mundo em que vivemos. O facto de vivermos em plano século XXI e existir desigualdades profundas entre classes sociais, onde o poder se foca numa minoria que é significativamente mais importante que os restantes cidadãos porque têm dinheiro.

Se o livro “Isto não é um diário” de Bauman fosse um blog seria o melhor blog do mundo, talvez se devesse ao facto de todas as afirmações e constatações de facto que o autor faz, ele defende que ainda há tempo para parar e fazer melhor.

A necessidade de mudar. Ainda há tempo para mudar, há que ter consciência disso. Ainda se pode fazer melhor e, para o bem de todos, temos mesmo de fazer melhor.

O mundo inteiro está diante de nós para seguirmos a nossa vontade, na medida de nossos poderes e de nossa imaginação.
H.G. Wells

Desafio #9: “Quem conta um conto acrescenta um ponto”

O mundo está a mudar. E consigo vêm novas formas de se (con)viver e novas formas de se estar. A partir destas mudanças surgem diversas tecnologias que nos permitem comunicar de uma maneira mais e até eficaz.

A conjugar com estas mudanças desenvolvem-se também alterações na forma como os media operam e como os vemos. Como resultado surgem os Social Media onde se aglomeram plataformas que permitem a partilha de opiniões e de experiências. É através dos Social Media que se dá a difusão de pensamentos e/ou opiniões que se expandem globalmente (Santos, 2013).

A partir do desenvolvimento dos Social Media cresceram os microblogs, vistos como uma ferramenta que tem contribuído para o sucesso desta nova forma de estarmos ligados ao mundo pela forma como conseguem influenciar os utilizadores.
A evolução a que se tem assistido no mundo leva a encarar o século 21 como uma forma de se voltar a focar na comunicação de um para um (Santos, 2013).

A word-of-mouth é uma forma de comunicação com grande capacidade de influência e superior a muitas outras ferramentas delineadas para comunicar, a sua influência deve-se ao facto de a fonte da mensagem ser independente (Santos, 2013).

Cada vez mais a comunicação boca-a-boca (também conhecida como word-of-mouth) tem vindo a ser um objeto de estudo. Concluiu-se desde o início dos estudos sobre esta matéria que é uma forma de comunicação de extrema influência no comportamento dos consumidores e na avaliação que fazem sobre um produto, serviço ou até sobre uma organização.

Os avanços tecnológicos têm tido um grande impacto nos estudos sobre este tema, pois a internet permite que os utilizadores partilhem as suas opiniões e experiências sobre produtos ou serviços com um maior número de indivíduos (HENNIG-THURAU et al, 2004).

Os Social Media permitem não só a partilha de experiências como acesso a informação, sendo estes fatores de diferenciação. Tem a vantagem de se poder personalizar a informação e a possibilidade de se estabelecer um contacto direto e personalizado, deixando cada vez mais de parte a comunicação de massas. A comunicação cada vez mais instantânea, como nunca antes (Santos, 2013).

A comunicação word-of-mouth é uma forma bastante eficaz no que toca à influência pessoal e graças a todos os desenvolvimentos tecnológicos a que temos vindo a assistir conseguiu-se transpor o conceito de word-of-mouth do meio offline para o online (Santos, 2013). 

A transição do século XX para XXI ficou marcada pelo desenvolvimento da comunicação e da tecnologia. O desenvolvimento da internet impactou a comunicação e ajudou a quebrar e a refutar com conceitos anteriormente definidos a partir das Teorias de Comunicação de Massa.

Adaptando-se às mudanças surge, então, o conceito de word-of-mouth online, que se define como todas as comunicações relacionadas com a utilização ou características de produtos ou serviços direcionadas para os consumidores por meio da internet (Litvin, Golsmithe & Pan, 2008 em Santos, 2013).

O word-of-mouth online ganhou mais ênfase com o aparecimento dos Social Media, visto que um dos fatores que define esta nova rede é o facto de as pessoas conseguirem influenciar-se mutuamente. É aqui que têm de entrar as Relações Públicas: num mundo cada vez mais complexo, onde os cidadãos são, cada vez mais, exigentes e conseguem aceder mais facilmente a todo o tipo de informação, as RP têm de ajudar as organizações a saber antever e analisar o ambiente onde operam para que consigam adotar estratégicas de comunicação que estejam em consonância com a realidade onde vivem (Solis & Breakenridge, 2009 em Santos, 2013).

A ideia de influência pessoal, muito própria da comunicação boca-a-boca, agora num ambiente diferente e à escala global, graças às diversas plataformas disponíveis para a partilha de opinião e que levou à ascensão desta forma de comunicar.

A internet fez ressurgir o conceito word-of-mouth porque permite que a comunicação seja bidirecional, ou seja, além de as organizações poderem comunicar através de plataformas digitais a baixo custo, permite que a informação sobre elas se espalhe mais rapidamente e permitiu que os consumidores partilhem publicamente a sua opinião e experiência que poderá estar, eventualmente, ligada a uma dessas organizações (Dellarocas, 2003).

Tal como no contexto offline, a word-of-mouth no meio online destaca-se pelo facto de existirem indivíduos que se destacam e que são influenciadores de opinião, contudo, ao contrário do offline, onde, por norma, esses líderes de opinião eram elementos dentro de um grupo – amigos, família, entre outros – em ambientes digitais estes influenciadores podem ser jornalistas, socialites, bloggers, ou seja, não necessitam de ter um contacto direto connosco, partilhando apenas as suas experiências e opiniões através das diversas plataformas de Social Media como rede sociais – Facebook, Twitter, entre outras -, blogs, fóruns de discussão, comunidades online, etc.

A comunicação para as massas tem como objetivo transmitir conhecimento e/ou informação sobre um produto ou serviço aos consumidores, uma comunicação vista como comercial e moldada e que acaba por não ser vista como tão credível, ao contrário do word-of-mouth que tem como a sua maior característica – e vantagem – a interdependência do emissor da mensagem, trata-se da comunicação sobre um bem, serviço ou marca entre consumidores independentes e onde se vê a fonte como imparcial e sem sofrer qualquer influência comercial (Litvin, Goldsmith, & Pan, 2008). Esta comunicação boca-a-boca (ainda que num contexto digital) tem um grande impacto devido aos sentimentos associados à experiência relatada por quem escreve, independentemente de serem sentimentos positivos ou negativos, o seu objetivo é partilhar a sua experiência.

O word-of-mouth online permitiu que os consumidores consigam recolher informações sobre algum produto ou serviço que lhes interesse, tendo a consciência de que grande parte da informação recolhida é imparcial, sendo, por esse motivo, vista como mais influente. (Hennig-Thurau, Gwinner, Walsh, & Gremler, 2004).

O word-of-mouth tem-se destacado com o desenvolvimento tecnológico e por este ter trazido consigo novos canais comunicacionais –  e-mails, mensagens instantâneas, blogs, entre outros (Allsop, Bassett, Hoskins, 2007) –, aumentando a sua importância para ser um fator determinante para a formação da opinião.

Desta forma ajudou ao acesso a opiniões que acabam por ter grande impacto aquando da tomada de decisão. O facto de a opinião ser vista como a opinião de alguém que é “uma pessoa como eu” contribui para a formação da opinião, por não ser vista como tendenciosa (Santos, 2013). O facto de ser vista como uma mensagem genuína e cuja informação não é enviesada a comunicação ganha maior influência para os recetores dessa mensagem (Artoni e Daré, 2008).

O word-of-mouth digital define-se como a transmissão informal de ideias, opiniões, comentários, informações ou experiências de um individuo a outros, que acontece através das plataformas digitais como e-mail, mensagens instantâneas, grupos de notícias, fóruns online e serviços de redes sociais. As mensagens são transmitidas rapidamente, com a vantagem de ser a baixo custo, ser vista como de alta confiança e onde a localização geográfica não é uma barreira que impossibilite a comunicação.

Os utilizadores podem assim partilhar o seu conhecimento, experiência e opinião sobre um produto ou serviço por todo o mundo.

Uma das maiores diferenças do word-of-mouth tradicional do eletrónico é que no primeiro a informação só é transmitida a quem está presente na conversa e tem maior credibilidade porque o recetor conhece o emissor, apesar disso o word-of-mouth eletrónico tem muitas formas de divulgar informação, sendo uma comunicação mais persistente e acessível.

O word-of-mouth tem sido visto como uma ferramenta que as organizações podem tentar adaptar a seu favor, quando trabalhadas da maneira correta. É importante que, primeiramente, se distinga o word-of-mouth: o orgânico, que se expande naturalmente, e o amplificado que é desenvolvida através de uma campanha intencional (Sernovitz, 2012 em Santos, 2013). 

As organizações não podem ser indiferentes ao poder e ao impacto que a comunicação boca-a-boca tem, pelo que têm de incorporar nas suas estratégias essa ferramenta. Muitas empresas começam integrar o conceito na área do marketing de word-of-mouth: é uma forma de transmitir uma razão às pessoas para falarem sobre produtos ou serviços da empresa, levando a que as pessoas falem sobre isso.

A integração do word-of-mouth na estratégia de uma organização traduz-se na tentativa de direcionar os discursos de influenciadores de opinião como bloggers, o que revela semelhanças com o trabalho das relações públicas, no entanto, a campanha de marketing que pretende criar word-of-mouth acaba por ser injetada em relações menos estabelecidas, menos definidas e mais complexas.

Para incutir o word-of-mouth as empresas têm de desenvolver estratégias que se enquadrem dentro de determinadas regras: interesse, facilitar a transmissão da mensagem, tornar as pessoas felizes e ganhar a confiança e o respeito.

Além disto, existem razões que conduzem as pessoas a falarem da empresa: o primeiro motivo prende-se com a própria empresa, a tentativa de comunicarem paixão; relativamente às pessoas existem três fatores determinantes – o facto de gostarem de parecer peritas em determinados assuntos; gostarem de ajudar os outros e gostarem de se sentir importantes. A última razão diz respeito à comunidade, ao facto de as pessoas sentirem que fazem parte de uma marca e de um grupo. Por oposição, encontram-se fatores como a exposição excessiva e os prémios e recompensas, que retiram credibilidade à empresa e podem matar o word-of-mouth.
É importante que haja um equilíbrio entre as duas partes.

Não se trata de uma ferramenta que as organizações possam iniciar e controlar por completo, uma vez que a essência e a definição da comunicação word-of-mouth passa pelo facto de serem mensagens vistas como idóneas, sinceras e isentas de informações parciais. Contudo, as organizações procuram, cada vez mais, formas para que as pessoas – nomeadamente opinion makers – falem sobre elas e os seus produtos ou serviços, mantendo na mesma a ideia e definição de se tratarem de mensagens imparciais e sinceras (Artoni e Daré, 2008).

A comunicação word-of-mouth influencia o comportamento do indivíduo na compra, sendo vista como um elemento crucial que potencia as vendas da organização principalmente quando se tratam de consumidores que estão a experimentar a marca pela primeira vez e que baseiam muitas vezes a sua decisão de compra pelas opiniões que foram partilhadas anteriormente sobre o referido produto sinceras (Artoni e Daré, 2008).

Cabe aos responsáveis de comunicação compreender esta ferramenta de comunicação e apesar de não poderem manipulá-la, tentá-la tornar numa mais-valia para si, influenciando favoravelmente os consumidores.

Para além de ser um elemento importante para as vendas da organização, a comunicação boca-a-boca tem também um peso muito grande em relação à reputação da empresa.

Tal como Gray e Balmer (1998 em Schwaiger, 2004) sugeriram a reputação é o valor que os stakeholders dão aos atributos de uma empresa, trata-se de uma variável que compõe a imagem da empresa. A comunicação boca-a-boca tem impacto no comportamento dos consumidores e consequentemente na reputação da organização, uma vez que influência as opiniões, crenças e atitudes em relação à empresa e os seus produtos (Artoni e Daré, 2008).

O word-of-mouth influencia a formação da reputação de uma organização, levando a que tenha mais ou menos impacto junto dos consumidores e um dos responsáveis para o desenvolvimento dessa relação é a internet. Mais do que investir em publicidade ou outro tipo de ferramentas de comunicação, as organizações têm de compreender a importância de uma avaliação da comunicação boca-a-boca que, apesar de não poderem controlar, podem tentar avaliar e analisar o resultado, uma vez que isso traz consequências para a sua imagem, produtos e serviços e, consequentemente, para a sua reputação.

A reputação não depende só de fatores controlados pela organização como de fatores que não são controlados por ela, pode, contudo, tentar manter uma boa relação com que os seus consumidores tenham uma perspetiva positiva sobre ela e ser essa a mensagem que passem (por exemplo através da experimentação de produtos, da prática da recomendação e o fortalecimento das relações pós-venda que são vistos como fatores de diferenciação).

Não posso afirmar que o word-of-motuh seja uma nova tendência até porque tal não é verdade, mas vejo-o sim como o renascer de uma cultura do “passa a palavra” que nunca morreu e acabou por se adaptar às necessidades e características de uma sociedade que depende da comunicação online e das novas tecnologias como uma aposta na comodidade.

O word-of-mouth eletrónico deve-se à junção entre a comunicação e a tecnologia e surge daí uma ferramenta de comunicação com mais credibilidade, sendo um fator de determinante para a formação de opinião.

A sociedade começa a privilegiar novos ambientes para comunicar e o ambiente digital que começa a ser um lugar de preferência.

 

Bibliografia

Artoni, F., & Daré, P. (Janeiro – Março de 2008). REPUTAÇÃO CORPORATIVA E A COMUNICAÇÃO BOCA-A-BOCA: UMA INTERDEPENDÊNCIA INEQUÍVOCA. Obtido de Pretexto: http://www.fumec.br/revistas/pretexto/article/view/453/448

Berger, J. (07 de Maio de 2014). Word of mouth and interpersonal communication: A review and directions for future research. Obtido de Science Direct: http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.720.64&rep=rep1&type=pdf

Santos, M. J. (Setembro de 2013). O Declínio e a Ascensão da Comunicação Word-of-Mouth. Obtido de Repositório Científico do IPL: http://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/3375/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20Maria%20Jo%C3%A3o%20Santos%20GERP.pdf

Desafio #8: Novo Espaço Público

A ideia de que espaço público é uma conceção frágil e variável que exige um trabalho de representação e argumentação cujos inimigos são a imediatez de uma política estratégica e a desestrutura dos espaços globais abstratos. A relevância do espaço público depende da capacidade de organizar socialmente uma esfera de mediação de subjetividade, experiência, implicação e generosidade.

A sua renovação poderia trazer uma cultura política aberta a longo-prazo, sendo o fio condutor para uma renovação da filosofia política.

Define-se como “público” tudo o que é de interesse geral e apela para um espaço de ação onde os elementos de uma comunidade política falam sobre assuntos relacionados com a sociedade. O espaço público onde se assinala os problemas e onde o conflito se converte em debate, nesse espaço reune-se processos de configuração da opinião e da vontade coletiva.

Espaço público refere-se ao tipo da comunicação efetuada por atores sociais onde se decidem assuntos de interesse público. É uma esfera dependente da qualidade da comunicação que nela decorre. A ideia de “esfera pública” e outros conceitos são importantes nas modernas sociedades democráticas.

O conceito de espaço público precisa de nova reflexão, pelo que se deve voltar a repensar os ideais normativos da democracia e da vida comum adaptando-as às condições atuais do governo e funcionamento da sociedade.

As alterações são provocadas pelas inovações técnicas na comunicação e na informação. Acredita-se que a internet irá contribuir para simplificar a aquisição de uma cultura cívica. Este desenvolvimento também conduz ao medo e ao entusiasmo.

A renovação da ideia de espaço público deve-se à necessidade de se proporcionar um conceito normativo e crítico para enfrentar as rotinas na política. Chamar normativo ao espaço público para articular um horizonte de expectativas sociais, para prescrever e orientar as práticas, formas da cultura política, para compreender os processos de democratização.

Nesta dimensão normativa o discurso é referente a problemas que interessam a todos como a política, questões práticas da vida coletiva, poder comunicativo dos cidadão que limita e articula o poder social. A partir destas discussões os cidadãos podem refletir sobre os seus próprios interesses num espaço onde se privilegia princípios como a igualdade, reciprocidade, abertura e discursividade

Ainda que não se possa chamar formalmente “espaço público”, é definido como um espaço comum de ação política, que constitui um ideal e um corretivo das atuais democracias e permite a redefinição das exigências sociais

É possível converter a ideia de democratização através da ideia de esfera pública, onde se incluem valores da dimensão coletiva perante interesses particulares, do político sobre o económico e da comunicação sobre o mercado.

Surgimento de dificuldades que levam a investigar a ideia do espaço público, da sua validade normativa e possível reformulação.

A preocupação pelo espaço público deve-se à ação política, um combate contra as necessidades económicas e as forças da ordem ou os fantasmas coletivos. Males sociais que se associam a sentimentos de insegurança, perda de confiança, desenraizamento, fragmentação e conflitualidade têm origem da desinstitucionalização do vínculo social do sentido público

A perda da eficácia política no espaço público, a fragmentação do espaço comum empobrece a vida política.

A política representa o esforço na recriação do vínculo social e estabelecer significações comuns.

Sem espaço público a política perde a sua essência e define-se apenas para o exercício de uma dominação estratégica ou técnica instrumental de configuração das relações sociais.

A ação política intrínseca importante para formação de uma comunidade, promoção da vida em comum de forma positiva, incentivo à ação comum.

A ideia de espaço público leva a que se pense na sociedade com base nos direitos do cidadão ou nas utilidades económicas

Uma sociedade cujo espaço público é desadequado acaba por se decompor, devido ao facto de os interesses ou compromissos estarem separados e por pensarem nos seus direitos em primeiro lugar. Os interesses devem ser do conjunto, têm de contribuir para o global. A importância da vida política para equilibrar a relação entre indivíduos e grupos, cultivando as suas diferenças sem que isso seja um obstáculo.

Depositar confiança no indivíduo só porque é semelhante impossibilita a construção de um espaço público de cidadania – local onde se estabelece a coexistência do diverso.

A mediação institucional para concretizar e integrar a diversidade num espaço público para eliminar as dificuldades que a sociedade tem para se ver, decifrar e tornar operativa a multiplicidade social.

O domínio da decisão coletiva obriga ao respeito da lógica de espaço público, onde decorre a concentração global dos interesses e se procede à integração de diversas reivindicações. Só uma conceção adequada de espaço público pode ir ao encontro dos requisitos sociais, contribuindo para o desenvolvimento do indivíduo em cidadão.

O valor democrático do espaço público conduz ao debate e à construção de sistemas públicos de integração. É visto como um conjunto de interesses, onde se debatem questões políticas, questões públicas e onde existe um equilíbrio entre os intervenientes interessados.

Esfera pública não se limita no equilíbrio das preferências de cada interveniente nem resulta da justaposição das opiniões, é preciso pensar na ideia de bem comum. Um espaço onde os cidadãos podem convencer e ser convencidos ou amadurecer em conjunto novas opiniões.

O processo democrático é o que permite o esclarecimento dos participantes sobre si próprios e ajuda-os a formar uma opinião sobre questões específicas, só assim a política é uma aprendizagem coletiva. No prisma deliberativo o diálogo é o elemento pelo qual se forma a identidade e a vontade política dos cidadãos

A política serve para que a sociedade se afaste de si própria que permite analisar as suas práticas, o debate permite gerar informação.

Os pontos fulcrais da esfera pública são os processos comunicativos que levam à formação e transformação de opiniões, interesses e identidade dos cidadãos. O objetivo é elaborar coletivamente interpretações comuns da conveniência

A Europa vista como uma nova definição do bem comum – o espaço público – formado depois de experiências terríveis e que levaram à ideia de que a definição do seu interesse não pode ser feita sem o consenso de outros. A discussão pública não por causa de um bem comum já estabelecido, mas sim uma oportunidade de esclarecimento público dos interesses. A Europa com condições para exercer uma democracia deliberativa. A Europa exemplifica que a sociedade deve ser vista como um concertado configurado.

Uma verdadeira comunidade protege mutuamente, compartilhando riscos e aumentando a as possibilidades. A política contribui para manter em forma o vínculo social, tornando-o visível e prático.

Introdução de prazos, critérios e procedimentos que regulam a discussão política, favorecendo o questionamento da posição pessoal, contribuindo para melhorar a vida democrática. A importância de as sociedades serem representadas para que tenham um mínimo de coerência e possam atuar, combatendo a dispersão e a ineficácia.

A democracia exige um trabalho contínuo, instaurando um regime de opinião pública, onde se destacada a consulta da sociedade. A democracia articula critérios como a participação dos cidadãos, a qualidade das deliberações, a transparência das decisões e o exercício das responsabilidades. Mais participação mediante um debate público aberto e substancial através da votação.

Tentar melhorar a comunicação entre os representantes e os representados. O povo é uma realidade relativamente complexa para ser resumido de forma satisfatória. Sujeito central é o grande ausente da política.

Os problemas políticos surgem na dificuldade de legitimar democraticamente a distância entre representantes e representados. A impossibilidade da democracia direta devido à complexidade dos assuntos públicos, pelo pluralismo social. Carência de um verdadeiro espaço público pode estar na origem da incapacidade de configuração política

Levantam-se questões que, mais do que é preciso resolver, é identificar que coloca em causa o que tem sido entendido como vínculo social.

O desafio de articular a convivência de sociedades plurais, evitando ao mesmo tempo o modelo comunitarista e o da privatização das identidades. É preciso reavaliar as diferenças para avançar na lógica da igualdade. Os grupos denominados como diferentes ou minorias apenas querem que se mantenham as promessas de neutralidade, necessidade de desenvolver a ideia de tolerância como forma de poder. As doutrinas tradicionais dos direitos humanos não respondem a determinados problemas.

Desenvolvimento do modelo liberal como tentativa de resposta para ultrapassar as diferenças, tenta ter em conta as diferenças que fazem parte do reconhecimento da humanidade. Em suma o desafio de hoje é situar a diferença no coração da identidade

O desafio é estar à altura do novo pluralismo cultural e político, que requer uma “cidadania multicultural”.

Deslocação no mundo contemporâneo para configurar conceitos como mundo comum, público ou laicidade, integrando as diferenças porque é importante reconhecê-las num regime de igualdade. O desafio consiste em integrar o indivíduo pelo reconhecimento público da sua identidade diferenciada, pelo ponto de vista do seu sexo e a sua dimensão cultural ou identificação com uma comunidade política. Dilema que exige uma imaginação e criatividade de desenvolvimento dos direitos, completando a passagem do universalismo dos direitos políticos aos direitos sociais e culturais. O mundo onde vivemos e temos de organizar.

Avalia-se a importância dos meios de comunicação na sociedade. O sentido de pertença associado aos meios de comunicação, que criam integração comunicativa instantânea e dão a sensação de se viver num mundo único, ampliaram as dimensões do comum e do público, tendo sido imprescindíveis para tal.

A comunidade criada pelos meios de comunicação e pela opinião pública não é espaço definido pelas teorias da comunicação numa esfera definido pelas teorias da comunicação nem a esfera onde se discutem assuntos comuns nem a realidade que serve de base para futuras decisões coletivas – um espaço que funciona com uma lógica própria.

A importância de usar a perspetiva construtivista para compreender que valores governam o espaço comunicativo e como o fazer. Os meios de comunicação fazem a mediação universal, fornecem a matéria da nossa realidade, são responsáveis pelo nosso conhecimento, a sociedade conhece o mundo por causa dos meios de comunicação. Os meios de comunicação são uma ferramenta vital para o indivíduo se orientar no espaço público, o mundo visto como um sistema de informação integrado. Para se compreender o mundo contemporâneo tem de se compreender antes como os meios de comunicação constroem a realidade. Mais do que informação os meios de comunicação fornecem segurança. Atualmente a informação pertence mais ao entretenimento do que ao conhecimento, estes são a moldura estável de uma insegurança geral e oferecem uma imagem dos poderes ameaçadores do mundo e tecem uma rede de segurança com base nos relatos protetores.

Os meios de comunicação não informam sobre o que acontece, mas sobre o que os outros consideram importantes. Vê-se a política a agir através dos meios de comunicação. Os meios de comunicação têm como finalidade estabelecer uma realidade conhecida e que possa ser compartilhada na comunicação e na interação por todos os elementos.

Opinião pública predetermina os novos lugares comuns e estabelece reportório dos assuntos públicos. Necessidade de estar sempre presente, visível e pela atenção política em que consiste a vida social e política. A opinião pública incute opiniões, dão forma a essas opiniões e fornecem-lhes temas.

A atenção não exige verdade, mas sim acontecimentos. Os meios de comunicação construídos através de um sistema de comunicação complexo. Dirigem a sua atenção consoante as expectativas dos espectadores.

Os meios de comunicação constituem uma tradição do homem contemporâneo, também são meios de identificação social. Os meios de comunicação contribuem para conformar a nossa identidade

A ideia de espaço público, ligada à realidade da cidade, aos valores da cidadania e ao horizonte da civilização. A cidade como afirmação do espaço público, um espaço cívico do bem comum. Na cidade a liberdade individual é preservada, as relações são impessoais, no entanto pelas alterações que vivem as cidades põem em causa a sua capacidade de promover a cidadania. Burgess e Parke desenvolveram a ideia da cidade como espaço de individualização onde se deve a maior produtividade económica e cultural, mas também é vista como concentração das patologias da sociedade moderna.

A vida urbana associada à cultura de liberdade, complexidade, hibridação, emancipação, comunicação e hospitalidade.

O conceito de cidadão como habitantes de um espaço público deixa de fazer sentido porque os desejos e as necessidades dos intervenientes mudaram

Os espaços públicos refletem a imagem que as sociedades fazem de si, as palavras e as ações gerem um espaço público e o espaço gera as formas da política. O espaço público não suprime a heterogeneidade. A urbanidade foi moldada com o objetivo de fornecer a capacidade de viver com diferentes culturas e etnias sem parecerem ameaçadoras

Define-se cultura como a possibilidade de atuação dos homens em conjunto sem que nada os force a serem idênticos

Privatização do espaço público, espaços públicos que não são públicos, espaços comuns mas que não são públicos, desaparece a tradicional conceção de espaço público, necessidade de continuar a existir um espaço para o público. Aos desaparecerem os espaços de vida comum também desaparecem as formas de sociabilidade que compõem a sociedade. O espaço público desaparece sob o domínio privado, os novos espaços públicos são apenas lugares de passagem.

Como Simmel referiu as cidades já não são estabelecimentos educativos. Repensar o conceito de cidade com as características atuais, quando o espaço público é agora um espaço virtual e tentar compreender se o espaço público pode existir fora do espaço da cidade clássica europeia. Importância de transformar a cidade tradicional – que transporta valores do século XIX – para coincidir com as características urbanas.

A urbanidade já não se realiza em nenhum lugar exclusivo. As sociedades modernas exigem dos cidadãos a capacidade de gerir insegurança, a diferença, a contradição, a ambiguidade e a estranheza.

O novo espaço público abre um paradigma e convida a pensar a cidade de outra forma, uma vez que a comunidade, o autogoverno e a integração social já não necessitam da cidade: a opinião política atua pelos meios de comunicação, a organização democrática é um princípio de organização dos estados.

A urbanidade tem de ser interiorizada por cada cidadão para que o comportamento evolua e qe possibilite a passagem da sociedade tradicional para a sociedade moderna.

Complexidade é o adjetivo mais usado para definir as sociedades, não há construção da identidade que careça de alternativa. A multiplicação dos contextos trouxe consequências para a forma como são pensadas as sociedades contemporâneas.

A realidade social carrega agora uma fluidez difusa referente a conceitos que conduziram a uma explosão de perspetivas a que Giesen chamou de perda de rosto. Esta pluralização levou à perda de um ponto unitário, reconduzindo a comunicação, delimitação das barreiras vigentes, multiplicação dos contextos acessíveis. A sociedade construída para se representar a si própria. A sociedade é um lugar onde se observam as observações continuamente, sendo verificadas, retificadas e equilibradas ou combatidas. A sociedade contextual define-se como funcional e diferenciada e não permite que a economia, o direito, a política, a arte, a religião ou a ciência representam a sua identidade

O desenvolvimento da complexidade leva ao desejo de reduzi-la para se tornar percetível e orientada.

O conceito de comunidade eficaz para se verificar as diferenças entre o sistema económico e a evolução social, pretendendo exigir-se uma contenção do poder económico e maior igualdade social. A ideia de comunidade conduz à ideia de solidariedade. O ideal da sociedade humana vai além da ação comum no presente.

Político é o espaço onde uma sociedade atua sobre si própria e onde renova as formas do seu espaço público comum. A discussão política além de ser objetivo de temas também é uma reflexão polémica sobre o próprio sujeito. A igualdade de direito demonstra ser insuficiente

As sociedades perderam a homogeneidade. As teorias da sociedade multicultural afirmam que o mundo se denomina por uma grande heterogeneidade onde é preciso proteger diferenças culturais, impõe-se um novo pluralismo. Levanta-se a questão se a realidade tem formas de responder a esta heterogeneidade que não dissolva a pluralidade das culturas num mundo fechado. Compreende-se a importância de estimular a comunicação entre culturas, mas tentando proteger o valor de cada cultura e as suas peculiaridades.

O mundo caracteriza-se pela crescente globalização. Conceções étnicas que levantam questões na época da globalização porque temos a ideia de identidade bem definida, vínculos e propriedades além de uma tradição fortemente enviesada, mas surge a oportunidade de se olhar para a heterogeneidade como uma oportunidade.

Faltam novos modos de pensar e organizar a realidade, novas estratégias para lidar com a pluralidade de pertenças, atribuições e modos de ser que definem as sociedades, precisa-se de uma política que veja uma realidade e que adote uma ação reativa. O multiculturismo também traz benefícios como o reconhecimento da pluralidade, identidades inseridas numa sociedade complexa.

Cultura é algo fundamentalmente próprio. É a capacidade de gerir a sua pluralidade interna e dialogar com a estranheza externa. Atualmente já não faz sentido insistir na identidade como se fosse uma coisa definida e definitiva

As culturas geram alternidade, estranheza e técnicas para tratar entender o diferente. A ideia de competência intercultural têm vindo a intensificar os encontros culturais. O encontro de culturas é possível porque se distanciam e conhecem é importante respeitar as diferenças. A liberdade é a virtude do pluralismo e é imprescindível respeitar as perspetivas num mundo multicultural. A liberdade ensina a que não se conceda um significado absoluto. A liberdade vista como uma virtude, a capacidade de aceitar opiniões e crenças diferentes

A identidade é o resultado de intenções discrepantes que lutam até que o imprevisto as derrote, somos o resultado da mistura entre intenção e o seu contrário. É através das histórias que os indivíduos e as culturas se tornam inconfundíveis. É o que os identifica e explica a sua peculiaridade e a individualidade de cada um.

Conceito de “bem comum” associado à mobilização de conceitos cívicos, mas surge ao mesmo tempo a dificuldade de definir “bem comum”. Este remete para dissimular um interesse particular, assegurar a autonomia do poder político, neutralizar conflito de interesses

Para Nobert Elias a política é uma tentativa pela definição de bem comum. É uma questão em aberto o que faz dela uma tarefa política. O conceito de bem comum desadequado a uma sociedade moderna, daí a urgência de retomar o conceito de bem comum. A ideia das relações entre o estado e a sociedade pressupõe que bem comum se deixa predeterminar. O bem comum só se concretiza e define no percurso de um processo político. Distingue-se da mera agregação de bens que resultaria de cada um só procurar a satisfação do seu interesse particular

Uma política orientada para o bem comum seria um processo de redefinição do particular e do geral, uma diferença que provem do espaço coletivo de discussão.

A ideia de espaço público como ação comum porque nele se criam as condições para identificação e organização da responsabilidade sejam feitas pela sociedade no seu conjunto. A importância da responsabilidade na esfera pública, tão imperiosa como arriscada. A responsabilidade pensada e articulada para enfrentar a crescente perplexidade social.

O êxito do princípio da responsabilidade é proporcional ao aumento da complexidade. A responsabilidade como sintoma da perplexidade normativa das sociedades complexas.

O processo de modernização da sociedade reflete a erosão moral, perda de valores e de orientações o discurso da responsabilidade tem um efeito tranquilizador.

Com tudo o conceito de responsabilidade não é estável, tira a capacidade de diferenciação, levando-o para um instrumento de indignação.

Nas sociedades secularizadas, pluralistas, em contextos heterogéneos a ideia de responsabilidade perdeu-se, a complexidade e a autonomia dos sistemas não são obstáculos invencíveis, mas desafios que levam à identificação das responsabilidades. Não se pode esperar que os conflitos se resolvam apenas pela responsabilidade

O conceito de responsabilidade substitui questões de obrigações e culpas. Onde não há atores pessoas nem consequências identificáveis. Defende-se a ideia de responsabilidade pelas consequências para equilibrar a falta de regulação e a deficiência das sanções jurídicas.

Concretizar a responsabilidade que considere as novas circunstâncias onde decorrem as ações humanas, a sua inserção num registo temporal amplificado.

Necessidade de responsabilidade e de ética para o futuro para controlar os riscos para as gerações vindouras.

Dificuldade numa sociedade complexa associada à dificuldade política. Articular uma época desarticulada. Facilitar uma reação prudente e flexível que beneficie a transparência. Responsabilidade para unificar as diferenças, dissolver tensões, ultrapassar contradições, estimulando o equilíbrio. A dificuldade em atribuir responsabilidades devido à segmentação das ações sociais e especialização de normas, leis e critérios, devido à modernização da sociedade e industrialização. Continua a haver a necessidade de se pôr em prática uma política de responsabilidade.

O crescimento da complexidade não impede que os agentes sociais atuem, mas conduz à tensão. A organização social da responsabilidade leva à elaboração de um conceito de responsabilidade associada a critérios de sustentabilidade. A organização da sociedade exige um quadro democrático de responsabilidade

O poder político vive atualmente com dificuldades. A fraqueza da política perante os fluxos financeiros e dos poderes de comunicação social dissolve-se no meio da globalização e perante os processos de individualização. Um traço comum aos processos sociais é a limitação dos poderes políticos, territoriais, funcionais e setoriais.

As tarefas públicas obrigam a uma estratégia que ligue os governos, administração, agentes económicos e mercados, que precisam de regulação estatal, sistemas de negociação em geral sistemas de coordenação, exigem formas de cooperação. A essência de preservar o poder cooperativo, preservando as suas funções. Tentativa de preservar a ideia de governação em sociedades onde se dissolveram os limites do estado. A cooperação como uma oportunidade de conquistar novos espaços para a configuração pública.

O estado não se pode retirar e tem de procurar solucionar essas questões e colaborar com os restantes atores, surge então a ideia de poder cooperativo, porque o estado não é culpado pela ingovernabilidade.

Ideia de estado cooperativo refere que as sociedades não conseguem cumprir tarefas públicas unilateralmente. Uma sociedade heterogénea precisa de ser regulada por um governo num sistema de vários níveis, as tarefas interdependentes e as decisões têm de ser coordenadas.

Poderes políticos com caracter transversal o que eleva a necessidade de aumentar a coordenação. Política como uma organização de interdependência, necessidade de equilibrar relações de poder entre grupos sociais, estabelecer prioridades. Necessidade de haver novas formas de governar devido à deficiência de integração, fragmentação do espaço social e irresponsabilidade, alude às formas de coordenação da ação social

A governação acredita que os problemas sociais não se resolvem apenas com uma administração eficiente, mas sim pela cooperação entre os setores da sociedade em causa. Insistência na integração social e luta contra a exclusão.

O governo apresenta novos objetivos: eficiência, fortalecimento da coesão social e política, participação, cooperação e compromisso, salientando que os resultados sociais a longo prazo são mais importantes.

Ideia de governação é a colaboração entre o estado e a sociedade civil para regular assuntos coletivos com critérios de interesse público, além da cooperação é a sobreposição de regulações. O mais importante é assegurar a coerência da atuação pública através da ativação do espaço público, integração e coerência.

Ideia de governação com nova orientação da administração pública, já não faz sentido uma escala hierárquica e delimitação dos âmbitos de poder, governar uma combinação de procedimentos (decisões unilaterais, há confiança, cooperação e mercado) os processos é o que realmente importam.

Capacidade de reflexão (segundo Luhmann) um sistema para orientar as suas operações, configurando a sua identidade, forma de autogoverno onde se define a sua identidade e compreendem o meio que os rodeia.

Obrigação de se limitar ao interior dos sistemas, capazes de refletir uma ação cooperativa. A Coordenação exige capacidades de reflexão e estratégia, exige esforço e preparação. A cooperação origina muitas combinações. A missão da política é tornar operativa a unidade da sociedade como valor para a cooperação.

Confiança no sistema de negociação dá mais importância às vantagens comuns do que aos riscos de cooperação. A missão do estado e da política é possibilitar essa confiança e torna-la efetiva

Devido à sua posição o estado não fala com uma única voz nem se situa acima da heterogeneidade dos interesses sociais, já não tem condições para tomar decisões soberanas e tem de se tornar mais cooperativo. Reduzindo a soberania o estado não precisa de renunciar às pretensões de configurar e tornar coerente o espaço social, uma vez que tem uma responsabilidade geral perante a sociedade.

As novas liberdades acompanhadas pelos riscos, porque cada um tende a considerar a realidade do ponto de vista que lhe é habitual. A diferenciação funcional faz com que os sistemas tenham “uma sensibilidade aos seus próprios assuntos e uma diferença perante os outros”

Quanto mais heterogénea é a sociedade mais importante é o governo cooperativo devido à contrariedade dos sistemas representados. Numa sociedade onde os intervenientes desejam e querem por direito procurar satisfazer os seus interesses individuais é também importante assumir responsabilidade pelo sistema, num sistema hierárquico a negociação é um modo eficiente. O poder cooperativo visto como possibilidade de o estado combater a sua ineficácia e insignificância e a necessidade de transformar a política.

Debate sobre a mundialização: Um novo civismo internacional que aspira a humanizar globalmente. A inevitável reconstrução do espaço mundial indica nova referência para a humanidade. Convicção de que uma sociedade mundial corresponde a um cenário de maior integração. A globalização produz inimigos com poucas coisas em comum, mas esta heterogeneidade é uma preocupação.

Quem é contra a globalização é contra a globalização dos direitos humanos, ambiente e direitos sindicais. Necessidade de se ser a favor da globalização para um mundo mais sério, com base no reconhecimento da sua diversidade e interdependência.

Desenvolvimento de um espaço público internacional para a formação de um novo sujeito, humanidade global.

Mundialização também é um espaço de atenção pública, onde se vigia e denuncia os atores que destabilizam, a humanidade observadora atua em nome da legitimidade universal.

A responsabilidade internacional dos estados obedece ao facto de a humanidade se impor como referência da ação internacional. A análise da noção de espaço público remete para a reformulação para a realidade da globalização. A promessa da globalização: pretensão de que os nossos desejos possam ser satisfeitos imediatamente, o mundo articula-se numa imediatez universal.

O melhor da civilização na base da ideia da multilateralidade. A Europa olha para o mundo de forma mais séria porque vêm o mundo como uma comunidade de política.

A Europa como forma de organização do poder político. A Europa está “globalizada” há muito tempo devido à cooperação, um dos benefícios da globalização, além da multilateralidade. A cooperação é um meio para maximizar os ganhos, muda a perceção do nosso próprio interesse. A melhor forma de fortalecer o poder é através da cooperação, negociar regras internacionais e formar correspondentes das instituições

Levar o mundo a sério porque se vê nele algo que é comum e trabalhar com estratégias mais subtis para identificar características mais convenientes, o poder só é eficaz quando não é absoluto.

A mundialização é uma mistura de bens e oportunidade comuns que nos potencia e vulnerabiliza.

A capacidade de ver o que é mau do que é bom são consequências da experiência civilizadora da humanidade. Ponto de partida para a construção de um mundo de bens comuns consiste em compreender o que significa a implicação de diversos espaços num destino que se unifica ou liberta.

A globalização como interdependência entre estados. A cooperação proporciona soluções mais eficazes e perduráveis. Do ponto de vista cultural fazer com que as civilizações e as culturas compreendam a dependência que as liga e do ponto de vista político implica a busca de um novo modo de articular o interesse público. O multilateralismo tem de se tornar no princípio central

A Europa vista como um jogo de cooperação que transforma quem se inclui nela, disciplina os interesses e modifica as preferências, insere numa rede de interdependência e torna os objeto de permanente discussão e revisão. O desafio consiste em abandonar conceitos centrados na ideia tradicional de estado e criar uma compreensão alternativa para a relação entre estados, nações e sociedades.

Desafio #7: O recomeço

Antes de ter a oportunidade de começar a ler o livro desta semana avisaram-me que, apesar de esta obra ter sido escrita há sete anos, iria continuar a ver semelhanças com os fenómenos mundiais a que assistimos diariamente e, de facto, é extraordinário como conseguimos ver nos acontecimentos atuais aquilo que o autor refere no livro. Desde o impacto dos EUA no resto do mundo e que, nos últimos dias tem-se tornado num tema crucial devido à eleição de um novo presidente que, para muitos cidadãos à escala global, é um elemento pouco credível, a situação dos refugiados que tem despoletado muitas preocupações e entraves nomeadamente na Europa ou até o aquecimento global que tem levantado cada vez mais inquietações pelos efeitos que se afirmam como irreversíveis e que trazem consequências graves para o futuro.

Vive-se atualmente um desequilíbrio interno. Ao mesmo tempo que se avançam em investigações e descobrimentos que pretendem melhorar e alongar a vida do Homem começa-se a sentir, cada vez mais, a regressão a vários níveis e que conduzem consequentemente à ameaça das gerações do presente e do futuro.

Vivemos no século XXI que tem trazido, ao longo dos anos, a inovação em áreas tecnológicas, técnicas sociológicas, desenvolvimento na globalização e, mesmo assim, vemos a liberdade e a vida a serem constantemente ameaçadas.Vive-se numa constante corrida contra o tempo, uma vez que o avanço extraordinário nas áreas tecnológicas já não acompanha os valores dos homens. A humanidade está, mais do que nunca e pelas palavras do autor, afetada pelo desvario, a desorientação e o desregramento.

O mundo está à beira do colapso: o mundo árabe-mulçumano em constante guerra, África vítima de guerras, epidemias, corrupção, o sonho iludido da Rússia, a tentativa de dominar o mundo por parte dos EUA, a China coberta de incertezas a nível político e militar.

Depois de todo o passado turbulento ligado às guerras e violência, o mundo continua a assistir a essas situações, as civilizações começam a atingir os seus limites e esta regressão é causada por todos os intervenientes. Vive-se num constante duelo de titãs em que todos os intervenientes estão a perder e espera-se para ver quem cai primeiro.

Maalouf apenas encontra duas soluções: ou se constrói uma civilização comum com a qual cada um se pode identificar – unida pelos valores, uma fé poderosa de aventura humana e enriquecida através das diversidades culturais ou iremos perecer de uma barbárie comum. A preocupação do autor reside no facto de todas as problemáticas a que se referem serem de hoje e não do amanhã.

Não se trata de atribuir culpas porque não existe apenas um culpado porque todos os atores incluídos nesta ação têm as suas próprias falhas.

“Nenhum povo na terra é feita para a escravatura, para a tirania, para o arbitrário, para a ignorância, para o obscurantismo, nem para a submissão das mulheres”.

Existe a necessidade de se relembrar constantemente que a universalidade é um valor e que todos pertencemos a ela. Que a civilização tem uma finalidade pelo que temos de aprender a pôr de partes as controvérsias, as lutas entre nações para se combater pelo mesmo fim.

Sermos superiores à intolerância e obscuridade do mundo árabe assim como o Ocidente tem de pôr de parte a sua arrogância e insensibilidade, mas torna-se difícil quando se vive num ambiente contraditório onde se mata, maltrata e destrói-se em nome da liberdade, da democracia, da legitimidade e defesa dos direitos do Homem.

Ao mesmo tempo que se conhecem os avanços prodigiosos – tecnologias, melhorias na área da saúde e na esperança média de vida – avançam também medidas que promovem o medo com ações tiranas e produção de armas. Ações que tornam a destruição da civilização mais suscetível. Uma progressão extraordinária da humanidade a nível material, mas um retrocesso a nível moral cada vez mais degradante.

É certo que se pode afirmar que a nossa mentalidade e o nosso comportamento progrediram em relação aos nossos antepassados, mas não foi o suficiente para fazer face aos desafios com que nos deparamos atualmente. Não se pode apenas pensar que fazemos melhor do que os antepassados e que isso por si só é o suficiente, é importante sim saber o que se pode fazer para melhorar o futuro dos nossos filhos e netos, porque as consequências dos nossos atos em qualquer área onde intervenhamos serão por eles vividas.

Deve, por isso mesmo, haver mais do que uma adaptação dos países para responder a essas adversidades, deve-se desenvolver um sentimento de solidariedade.

Pela primeira vez na História existe a necessidade de um governo cuja “jurisdição” abrange todo o planeta. A importância do conceito “legitimidade” para que os cidadãos aceitem a autoridade de uma instituição personificada por homens e considerada portadora de valores partilhadas.

Como se percebe pelas palavras de Maalouf para se combater a crise moral do nosso tempo não se trata de reencontrar, mas sim a necessidade de inventar. Necessidade de se recorrer a algo diferente, elaborando uma escala de valores que permita gerir a diversidade, ambiente, recursos, conhecimentos, instrumentos, poder e equilíbrios de uma mais eficaz do que se tem feito.

A necessidade de se ser sábio: constatar a incompatibilidade da nossa época, a especificidade das relações entre as pessoas, a especificidade dos meios que estão à nossa disposição assim como os desafios que enfrentamos. De nos afastarmos das ideologias e dos erros do passado e começar do zero, sem preconceito.

Tem de se trabalhar para que seja possível e tolerável uma vida em comum, para que todos reconheçam o peso da palavra valor e que esta se baseie na cultura e no ensino.

Ser superior ao desregramento que se vive exige uma adoção de valores que primam pela cultura (que reforce a importância e a essência da história cultural). Olhar para a cultura como instrumento de auxílio para gerir a diversidade humana. Necessidade de alterar hábitos e prioridades para nos ajustarmos ao mundo. A cultura para ajudar a conhecer os outros através da literatura – que ajuda a revelar as suas paixões, aspirações, sonhos, frustrações, crenças, visão do mundo, perceção de si e dos outros.

“A tinta do sábio vale mais do que o sangue do mártir”.

Compete aos homens lutar para “manter o mundo”, sem recorrer às guerras, às armas, mas através de características como a audácia, generosidade e, acima de tudo, sensatez.

Torna-se prioritário tornar este mundo habitável para nós e as gerações futuras. Necessidade de humanizar este século. Necessidade de se aprender a construir uma solidariedade independente de religiões nem insensível às necessidades metafísicas do homem sem denegrir as cultura, unindo os homens. Não se trata de ignorar as diferenças físicas ou culturais de um indivíduo, trata-se sim de ver para além disso, ir ao essencial, conhecer a individualidade de cada um.

Relembrar os cidadãos deste mundo que tem de se respeitar o ser humano independentemente de quem é, e que essa é uma regra básica e essencial para o Homem.

A importância da coexistência harmoniosa, que se torna indispensável para o estabelecimento de relações sólidas. De a sociedade ter assente a sua dignidade, respeito por si própria, identidade, invenções científicas recentes, sucessos económicos, realizações culturais, vitórias militares.

É preciso que o indivíduo se adapte, que reconheça e partilhe dos valores daquela sociedade, que compreendam as suas preocupações e que ajudem a que estes países possam ser ouvidos no resto do planeta.

Só quando se acredita na dignidade das culturas é que se pode compreender e avaliar. A importância de se respeitar o ser humano, preservar a integridade física e moral, preservar a capacidade de pensar e exprimir.

É preciso agir mesmo que haja dúvidas sobre se é preciso atuar ou não, porque a sociedade não tem nada a perder com uma alteração do seu comportamento. São medidas que têm de ser mudadas para diminuir o risco. Cabe aos homens decidir – e é este o desafio que Maalouf deixa – se escolhem agir ou se decidem ser indiferentes.

Desenrola-se uma história a nível global que poderá revelar-se destruidora, mas é por esse motivo que se torna crucial conciliar o convívio dos indivíduos diferentes devido à religião, cor, língua, história, de forma pacífica e harmoniosa é uma tarefa difícil, mas não impossível.

O início de uma nova história que deve deixar de lado as lutas entre nações, Estados, comunidades étnicas ou religiosas para iniciar uma etapa diferente, que se deixe de combater contra o “outro”, mas sim contra inimigos que sejam temíveis e ameacem a humanidade.

Não comprometer a vida, mas sim fazer dela uma prioridade. É preciso olhar-se para as ameaças com que nos deparamos atualmente e torna-las em oportunidades, compreendendo o impacto dos desafios que se tem em mão.

Deve-se usar os recursos que temos disponíveis a nossa favor como o caso do progresso científico. A ciência tem de ser usada sabiamente a favor da humanidade, tem de se erradicar com chagas que impossibilitam o desenvolvimento.

Capacidade de tolerar a diversidade de culturas sem ameaças e defender que as diferenças entre nações não deviam afastá-las, mas sim reconciliá-las, aproximá-las umas das outras, conseguindo encarar o futuro juntos.

Delinear um modo de funcionamento que aglomere as capacidades de todos nesta tarefa, sensibilizando os indivíduos para desempenhar um papel ativo na ação de salvamento com sabedoria, lucidez, paixão e até ira.

“Dizer que ainda se pode agir, que ainda se pode inverter o rumo das coisas, mas que para isso devemos mostrar-nos audaciosos e imaginativos e não utópicos, timoratos, comedidos. Que é necessário ousar abalar as nossas rotinas de pensamento e os nossos hábitos de comportamento, abalar as nossas certezas imaginárias e reconstruir a nossa escala das prioridades.”

Desafio #6: A insustentável nobreza do espírito

“A obra-prima de Whitman, a sua visão global, é exactamente acerca disto: a vida como demanda da verdade, do amor, da beleza, do bem, e da liberdade; a vida como a arte de nos tornarmos humanos através do culto da alma humana. Tudo isso se exprime em “nobreza de espírito”: a encarnação da dignidade humana”. 


Definir a nobreza de espírito é algo que não se pode resumir apenas numa palavra, mas sim num conjunto de valores e ações que têm moldado aquilo que somos, aquilo em que acreditamos e que só funcionam quando ligados entre si. A nobreza de espírito é, na realidade, a verdadeira nobreza por não se tratar apenas num ideal, mas sim nesse conjunto de valores que podem preservar a dignidade humana e a liberdade que, mesmo num mundo tão avançado e evoluído, consegue muitas vezes, estar ameaçado.
Pensar na nobreza de espírito é pensar em valores que estão intrinsecamente associados a ela e que são considerados por nós como dados adquiridos de tal forma que nem nos apercebemos da sua importância e da vitalidade que têm para o ser humano. Nobreza de espírito é liberdade: a liberdade de pensamento, de opinião e de tolerância. É algo tão nobre, liberdade é dignidade. A liberdade é o caminho para uma sociedade mais digna, a importância de existir liberdade para se pensar de forma diferente, falar de maneira diferente, ser diferente, ter uma opinião diferente sem que isso seja condenável.
“Qual é o futuro da democracia, da liberdade política, se o povo já não sabe qual é a essência da sua liberdade?”
Vivemos num mundo acelerado, em constante evolução, o que leva a que a noção de tempo mude e seja menosprezada. A era onde vivemos atualmente é denominada como a era tecnológica, o mundo ocidental atribui superioridade a tudo o que é novo e veloz e que mostra progresso e resultados. Dessa forma, os valores incutidos na sociedade desde sempre começam a dissolver-se, onde a cultura desvanece e a ordem social é transformada em caos. Vivemos o que é efémero e despreza-se a importância desses valores que têm moldado os homens desde sempre.
A sociedade é atualmente pautada por princípios e padrões económicos que começam a assumir um maior valor e que leva a que outros comecem a ser desprezados. Na entropia que se instala na sociedade e dentro de cada indivíduo surgem os danos colaterais. As guerras têm destruído valores de vida, a violência e o poder dominam sob a verdade e a liberdade, quando esta é sinónimo de dignidade.
É preciso reafirmar os valores que elevam a nobreza de espírito, valores como a sabedoria, coragem e moderação, que Sócrates defendeu que ajudam a garantir a dignidade humana.
A importância de, mais do que parecer, se ser justo. A justiça é um pilar fundamental no conceito de nobreza de espírito. Há que saber distinguir o bem e o mal, porque é importante proteger o que é bom para a humanidade. A justiça exige sabedoria, bondade, verdade e beleza.
Nobreza de espírito é associar a verdade à liberdade porque só existem quando ambas estão presentes. A verdade “liberta-nos porque tem poder sobre nós: é ela que nos dá instruções (…)”.Segundo Espinosa “a verdadeira felicidade só pode existir na sabedoria e conhecimento a respeito da verdade, e esse conhecimento só pode ser alcançado através do intelecto humano”.

O pensamento político não é o suficiente para resolver as questões da vida, a essa toca a educação liberal, a ética, a religião ou a arte, mas para que qualquer uma dessas vertentes possa responder e completar as dúvidas ou questões humanas, tem de existir liberdade e tolerância.
A prosperidade e a segurança são valores importantes, mas não lhes cabe a eles definir a civilização ou preservar os valores incutidos na cultura. A essência e a importância de espírito ganha ainda mais valor por incluir características que protegem a humanidade e conservem esses valores culturais. A essência da verdadeira cultura é o desenvolvimento humano. Sem a cultura não existe liberdade: “Quem é a favor da “cultura” deve agora concordar com a paz”. A arte é vida porque esta ajuda na expressão da beleza e da verdade.
A dignidade humana está ameaçada e é preciso consciencializar os indivíduos para isso. A liberdade política não chega para que exista harmonia. E é por isso que o autor – Rob Riemen – insiste que o único corretivo para a história humana é a nobreza de espírito. É por esse motivo que Riemen refere autores que defendem esse pilar (a nobreza de espírito) como vital para a humanidade e para a perseverança da dignidade humana e da liberdade. A nobreza de espírito preserva a felicidade humana;
A liberdade política por si só não é suficiente para que exista harmonia entre todos os cidadãos. É importante que as pessoas ganhem consciência de que a dignidade humana está ameaçada.
Nobreza de espírito não se trata de poder, pois isso é o contrário que se pretende e nem a riqueza nem a inteligência podem garantir a nobreza de espírito. Não se pode definir a nobreza de espírito com objetividade, a falta de significados fazem perder a essência de dar um significado ao espírito.

A nobreza de espírito é a capacidade de se sair da zona de conforto, mantendo as suas convicções quando as condições são adversas. É a forma mais nobre, mais eficaz e impactante de combater o ódio sem recurso a armas em punho que matam não só o homem, como a cultura, a liberdade e a dignidade humana.

Lutar para que se conserve a nobreza de espírito. Porque só assim se pode preservar a verdade e a liberdade, porque sem elas não haverá cultura  e a alma humana não se desenvolve. Porque a verdade conduz ao pensamento e à ação. Preservar esta quinta-essência porque nela está o significado da vida e da nossa existência. 
Só com a nobreza de espírito se pode ripostar contra o terror, a violência, a fome e a desumanização.
Para Thomas Mann a arte, a beleza e a história podem libertar a alma humana do medo e do ódio e, assim, preservar a nobreza de espírito. O mundo precisa de ordem social que salvaguarde a alma humana e para tal é preciso que os homens larguem as armas e combatam com a palavra.

“Só obedecem ao apelo para serem humanos, aqueles que não se deixam possuir pelo desejo, riqueza, poder ou medo mas em vez disso conseguem tornar seu o que é duradoura e verdadeiramente bom e deixam que a liberdade e a verdade os conduzam.”

 Nota: todas as citações foram extraídas da obra  Nobreza de Espírito de Rob Riemen

Desafio #5: raison d’être

Assistimos a um mundo que está constantemente a evoluir. As capacidades humanas e as condições nas mais diversas áreas são favoráveis à mudança e evolução. Por esse motivo levanta-se a questão se os modelos incorporados nas organizações continuam a ser aceitáveis na medida que em correspondem às necessidades – a nível moral e político. Com as constantes mudanças à escala global surgem, ao mesmo tempo, os desafios.

As organizações são agentes importantes no sistema económico, mas não podem ser encaradas como as únicas responsáveis dos excessos e falhanços deste modelo e devem ser vistas como elementos importantes para a mudança.

A importância de uma cultura organizacional conduz a um espírito que ajuda a responder aos desafios sociais, através de fatores como a inovação. No entanto as organizações não podem avançar sozinhas na restruturação nas áreas da política e da ética na atividade económica e têm a consciência de que precisam de outros elementos para esta transformação.

Têm de se criar modelos que mostrem a eficiência e que sejam capazes de criar riqueza num mercado económico extremamente competitivo. O desenvolvimento económico depende, em certa parte, da inovação e esta é vital para a eficiência competitiva. Estratégias inovadoras ajudam na criação e desenvolvimento de produtos, serviços e processos e esse investimento reflete-se na economia e na performance a nível geral. É, também, por esse motivo que as organizações adotam mais rapidamente as ideias de globalização do que a maioria de instituições ligadas a meios sociais, legais ou educativos. As organizações vivem cada vez mais em ambientes competitivos e isso obriga à reestruturação interna, surgindo o conceito de cultura organizacional – fundamental para conquistar e fazer escolhas estratégias. São, portanto, fatores que contribuem não só para as instituições como para o desenvolvimento desses países e isso leva à questão sobre as suas responsabilidades a nível social.  

É importante encontrar um ponto de equilíbrio entre a globalização económica, as políticas globais e as necessárias regulamentações. É preciso adotar-se um modelo diferente e que seja à escala global. Que não sirva apenas para potencializar os recursos como ajude financeiramente e que promova a responsabilidade social e a cultura organizacional, conceitos que começam a ganhar um peso cada vez maior dentro das instituições e são visíveis na forma como interagem com os agentes externos à organização.

A prioridade de uma organização não pode ser apenas potenciá-la a nível financeiro porque isso coloca em causa as suas dimensões éticas e políticas. É aí que surge a importância da inserção das organizações na vida da sociedade, demonstrar a sua cultura organizacional, defender os elementos que a constroem. Um modelo económico pode contribuir para os cidadãos mas ao mesmo tempo a forma como ele é produzido pode trazer consequências, por isso é que se verifica que um dos maiores desafios atuais é reconciliar o dinamismo económico e as suas ações com a justiça social.

O maior desafio da globalização – a nível social – é a implementação de normas e significados reais do desenvolvimento humano, daí surgir a importância de desenvolver um conceito de política. O mercado económico e todas as suas vertentes podem ser potencializadas quando conjugadas com políticas que ajudem os modelos de modo a tornar-se mais sustentáveis e desenvolvidos. É importante mudar e alinhar um conjunto de ideais do foro político, económico e social, criando um modelo mais sustentável e justo. As organizações devem adaptar uma cultura de responsabilidade, nomeadamente, a nível social. Deve-se reter o que é bom e funcional e adaptar consoante as características do meio envolvente para que se potencialize o modelo económico. É preciso uma restruturação a nível ético e político na economia. Independentemente da área onde uma organização opera, ela deve ser uma mais-valia a nível social e deve pensar como pode dar o seu contributo e inserir a responsabilidade social nos conceitos base. Cada vez mais as organizações são responsáveis por dar um significado à sua identidade, às potencialidades e pô-las ao serviço da sociedade.

A cultura é um processo orgânico que mobiliza e influência toda a organização. Trata-se de um conjunto de sistemas simbólicos usados para produzir interações a nível social, é uma parte intrínseca das sociedades. Inclui valores que conduzem a decisões, comportamentos e influenciam o clima de uma organização. As empresas têm cada vez mais a perceção de como a cultura é importante e começam a criar o seu próprio modelo, mas sem esquecer que todas as transformações devem ser sustentáveis de forma que a própria não sofra com isso, uma vez que a resistência a todas as mudanças também é forte.

Verifica-se que questões políticas e éticas levam a economia ao progresso e isso confere-lhes legitimidade social. São estas questões que ajudam na conquista de objetivos. As dimensões éticas e políticas ajudam na condução de escolhas e comportamentos de uma empresa, se ela quiser que as suas ações tenham significado e que sejam importantes para o progresso e para a sociedade.

A mudança cultural faz com que os líderes pensem fatores essenciais: criatividade e inovação, empreendedorismo, organização e liderança de uma comunidade, servir o bem comum. A criatividade e a inovação são fatores essenciais para transformar o modelo económico. São estas características que, a longo prazo, ajudam na criação e desenvolvimento de emprego. Ajudam também no desenvolvimento de economias fortes e sustentadas. O empreendedorismo não se prende apenas com a questão do lucro, mas com o fenómeno do progresso. A CSR aparece com o intuito de responder a desafios (questões ambientais, pobreza ou desigualdade), mas para esta ter o efeito que pretende tem de ser incorporada na cultura organizacional e tem de se refletir nas atitudes da organização. Não basta testemunhar, tem de se ser um interveniente. Começam a surgir novas definições de modelos cujo objetivo é apresentar questões mais importantes do que a obtenção de lucro. A ideia de empreendedorismo social que foque os ideais e as qualidades e direcionar para as causas sociais. Desenvolvimento do conceito de inovação social que procura apresentar soluções que atinjam eficazmente as necessidades sociais e ajudem na criação de relações sociais. Deste modo aumenta a capacidade de agir e a responsabilidade social é vista como uma motivação. Os negócios desenvolvidos pelas organizações procuram servir um propósito local e são vistas como exemplos. É importante reconhecer líderes que consigam conduzir a mudança cultural, motivar, que saibam ouvir e preocupar-se. Que assumam a responsabilidade pelas ações. Assegurem a consistência através dos valores e serem vistos como um líder ético. Capacidade de aceitar a complexidade cultural dentro das organizações, promover a comunicação, transparência e confiança. Envolver os elementos da organização na estratégia.

As organizações devem ter a capacidade de desenvolver uma cultura política e vontade em participar nas discussões da comunidade em prol de um bem comum. Interveniente ativo na sociedade e com um conceito de responsabilidade social afirmado. Elevado grau de legitimidade e transparência. Com desejo de servir o interesse público. Percebe-se cada vez mais que o foco das empresas não é o lucro. Não se trata de mudar a estrutura organizacional, mas sim a cultura que se vive. Tem de se pensar no mundo que se está a construir. As empresas precisam de debater em conjunto todas as questões associadas à vertente política com os restantes stakeholders.

A cultura organizacional leva a que se tomem decisões estratégicas em nome do interesse público. As organizações adaptam os seus modelos para contribuir para diminuir os problemas do século XXI e percebem que a qualidade dos seus produtos e serviços não chegam para se destacarem para serem líderes. É preciso serem um contributo para a sociedade, ajudar em causas sociais com que se identifiquem.

O papel dos líderes já não se foca apenas na gestão, no objetivo primordial de obter lucro, mas sim no desenvolvimento de um espírito empreendedor e criativo na organização, que motive os colaboradores e inicie a mudança cultural para um ambiente ético e sustentável. Escolher a dignidade humana como um valor marca a diferença nas relações, no clima e na participação das pessoas. É preciso adotar um modelo de responsabilidade social e política. A responsabilidade política tem um grande papel nas organizações. A necessidade de se olhar primeiramente a partir de uma perspetiva geral para, posteriormente, se olhar de uma forma mais detalhada e objetiva e fazer a diferença.

Desafio #4: O espírito da Europa

“Vivemos numa Europa desgastada”, é nisto que penso quando acabo de ler a obra A Ideia de Europa.

Uma Europa que já viveu momento grandes, que esteve no auge, que se diferenciava dos restantes continentes pelas suas potencialidades. Uma terra cheia de história. Este desgaste provém de diversos fatores, um desgaste que veio corromper com uma Europa unida e que se percorria a pé.

A história da Europa está espalhada em toda a parte, nos mais pequenos detalhes como os nomes das ruas ou nos escudos afixados nas residências. A Europa é uma instituição cujo valor foi sendo acrescentado pelas histórias que viveu, a herança que recebeu e que transmitiu aos homens que viu nascer.

A Europa de hoje em dia tem-se vindo a afastar dessa imagem rica e histórica, vivida e contemplada por homens que já na sua altura e ainda hoje são uma referência.

“A história europeia está repleta de longas marchas”.

A história da Europa é o resultado de uma riqueza de situações vividas e que definiram a sua identidade. A Europa foi enriquecendo através da literatura, arte, música, pensamento filosóficos que assentam em valores cristão, mas não só. A história e a identidade da Europa também se faz marcar por situações cruéis, massacres, morte, ódio.

Uma Europa desequilibrada que tanto foi principal elemento para a história como serviu de palco para momentos fraturantes da história a nível mundial (como, por exemplo, o caso do Holocausto). O desenvolvimento histórico da Europa trouxe consigo um peso enorme sobre aqueles que nela crescem.

A cultura europeia vai-se dissolvendo a uma velocidade incontrolável, para dar lugar a um conceito de globalização. Desta forma a Europa tem perdido a sua essência e os seus valores que vão dando lugar ao comum e banal. A adoção de uma “língua mundial” – anglo-americana -, a padronização tecnológica da vida quotidiana, universalidade da internet – a ideia de que podemos chegar a qualquer lado através de um clique, numa tentativa de eliminar fronteiras e feridas antigas. A ideia de Europa começa então a moldar-se e a afastar-se da ideia que outrora prevaleceu.

Pensar na Europa que já existiu com a que se vive atualmente. A Europa que nos dias de hoje vive um momento em que a sua identidade, as suas características começam a dissipar-se e a deixar de se distinguir no meio de toda a informação, nomeadamente, de tudo o que vem de fora. Uma Europa desapontante porque toda a riqueza que tem a nível cultural deveria servir como interesse para se investir e acreditar nesta Europa, para lutarmos pelos valores, mas não é isso que acontece.

Com os valores cristãos em declínio pode este ser o caminho para uma transformação profunda da identidade da Europa, afastando-se da uma herança que tem carregado e abafado as suas virtudes.

“Esta tarefa pertence ao espírito e ao intelecto”

Cabe aos homens darem o passo para a mudança e equiparar-se com outras grandes potências mundiais ao nível económico, tecnológico, entre outros para conseguir reagir. Existe uma necessidade de que a Europa se volte a afirmar para que ela possa sobreviver.

Europa vive de uma herança de Atenas que a enriqueceu em áreas imprescindíveis do intelecto humano e a formação da sensibilidade, mas foi mais além, trouxe teorias e conflitos do foro político e social. A herança de Atenas e Jerusalém definiu o ser europeu como alguém que tentar negociar ao nível moral, intelectual e existencial. A riqueza e essência da Europa reside, em grande parte, nesta herança que permitiram que se desenvolvesse em áreas em que se destacou.

A Europa é mais do que um pedaço de terra. Ela carrega histórias, significados, ao contrário de outras terras como a América do Norte que, fora situações excecionais, deixa-se levar de forma leviana.

A Europa traduz-se num equilíbrio entre o bom e o mau: o massacre, a destruição, o egotismo e ao mesmo tempo brindou as gerações com capacidades na música, matemática ou no pensamento especulativo. Esta herança estende-se a todos os europeus, independentemente da sua formação ou crenças, está intrínseco na sua identidade.

“Tudo isto serão sonhos, talvez imperdoavelmente ingénuos. Mas trata-se de fins práticos a que vale a pena almejar.”

É preciso lutar contra a tendência de se deixar a Europa dissipar, de se fazer perder a sua essência e o que de melhor tem, o que de melhor carrega de todas as histórias que já viveu. Esta Europa, descendente de terras com ideologias fortes, tem de continuar a subsistir. A Europa ainda está viva e cabe a todos trabalhar para moldar a Ideia de Europa numa Europa Ideal.